Clara
Ela abriu a porta da sala, olhou para todos que estavam depositados no sofá e deu um sinuoso e alto grito:_ Eu não agüento mais!!!
Todos assustados num só pulso miraram-se na jovem Clara.
Ela sempre fora uma menina quieta e serena. Brincava com seus primos, corria pela sala à noite, adorava desenho animado. Enfim, Clara fora uma criança aparentemente igual a todas as outras, normal. Mas existia uma coisa que a diferenciaria das mesmas, que a própria Clara desconhecia.
Aos treze anos, ela teve jogado na cara, cuspida e cravada o começo da brutal realidade que é a vida.
Clara perdeu o seu pai, não ele não morreu, mas foi embora do seu coração de tal forma que nem mesmo os anos dourados trariam mais. Sua mãe teve a dura incumbência de ter que criar os seus três filhos, ainda passando pela transição da adolescência com todos os seus respectivos conflitos, teve também que neutralizar muitos de seus valores e correr atrás de um equilíbrio.
Mas a mãe de Clara, sempre teve um temperamento e vida interpessoal difícil
Por mais que Clara tentasse se anular para sobrepor a sua mãe, esta não percebia tal chagas que infestava-se na sua filha do meio.
Clara também, nunca teve um bom relacionamento com o seu irmão mais velho, quando se falavam eram apenas coisas básicas do dia-dia e quando se desentendiam, sangue coloria a casa.
A ainda pequena garota, não conseguia olhar para si mesma. Ela foi crescendo frustrada e revoltada. Clara tinha uma índole boa, ela queria a justiça social, pensava no futuro e em seus sonhos, mas aceitava que eles nunca chegariam a se tornar realidade.
Eis que Clara, coitada, sofre!
Ela fica dias e noites trancafiada no seu quarto, acompanhada apenas dos seus desejos e suas duvidas.
Clara sempre fora tida como a diferente da família. Ela já fora humilhada inúmeras vezes em reuniões, em outras ocasiões, sempre se sentira deslocada.
Sim, se Clara apanhava?
Ela vivia levando pancadas das vidas que se encontravam no seu ciclo mais pessoal. Ela odiava mortalmente a violência em si. E se revoltava cada vez mais quando injustamente acontecia com ela. Não que Clara fosse uma puritana, ela tinha também os seus momentos de insanidade, mas eram poucos em vista do que se passa em seu intimo.
Enfim, Clara se frustrava cada vez mais. Cada dia mais...
Até que um dia, ela passou a sentir e querer seguir seus próprios desejos. Sua maneira de se vestir, seu corte de cabelo, suas escolhas, seu e somente enxergar mais seu eu. Talvez Clara estivesse crescendo.
Ela passou a se sentir gente, humana, alguém. E passou também a perceber que poderia fazer mais por ela mesma.
Aos quatorze anos teve a sua primeira relação mais intima, não o sexo, com outro alguém. Esse que seria o seu primeiro amor e dor de amor.
Ela passou anos tendo algo, absolutamente esporadicamente, com a mesma pessoa, mas paralelamente com outras também.
Clara se apaixonou perdidamente mais três vezes por outras pessoas, mas sempre amores frustrados.
Ela então no ápice de seus dezoito anos, no pico de sua revolta e dor introspectiva, num suspiro quase falho e lágrimas agonizantes, mãos tremulas e pressão baixa, revela a sua mãe que descobrira gostar do mesmo sexo e só ter amado um único homem em toda a sua vida, mas que o seu maior amor tinha sido uma mulher. Falou também, que o resto dos homens que passaram pela sua vida tinham sido um tipo de fuga, de buscas por respostas, de medo, de prova de fogo e desespero de sua parte.
Sua mãe, no ápice da loucura e revolta de sua vida, não entende Clara, mas diz que a aceita.
Ora, porém brigas e mais desentendimentos e revoltas vieram depois. Talvez a sua mãe não tinha ainda a aceitado.
Clara entra em contradições consigo mesma e se desespera cada vez mais. Ela está se sentindo perdida em meio a um labirinto infindável, ela se sente trancafiada numa pequenina caixa repleta de facas por todos os lados, ela quer gritar um grito desumano, ela quer fugir daquela casa vazia, ela perde o medo da morte, perde o medo do escuro, ela perde o desejo pela vida, ela tenta esquecer seu passado, mas ele está cravado em sua memória doente.
Como pode uma garota tão nova e bonita, recheada de qualidades estar assim tão indignada com a vida? Os outros se perguntam.
Mas eles não sabem que Clara se sente afundada num navio pesado e escuro no fundo do oceano tentando gritar, sair, mas ninguém a escuta, ninguém consegue vê-la.
Clara, então, faz provas com a vida, ela usa e abusa do álcool, ela toma coragem para fazer o que deseja, Clara se mostra a revoltada, ela assume a fumaça correndo em seus pulmões. Ela conhece novas pessoas, Clara finge um retrato oposto do seu, Clara... conhece as drogas, Clara utiliza dela para satisfazer os seus desejos reprimidos. Cada vez mais ela se sente no fundo do poço e sabe que esta caminhando para ele. Ela desistiu de tentar, ela desistiu de caminhar. Clara desiste de se explicar, ela desiste da vida. Clara brinca com a vida. Clara definitivamente fraqueja e falha consigo mesma.
Então alguns diziam depois, ela só precisava de mais compreensão, de mais carinho, de mais zelo e atenção, não agüentava mais os brutos pesos pousados em suas costas.
Mas Clara não agüentou mais nada e então um dia, no frio e alto de sua loucura sóbria, cruel e injusta dor, entra na sala de sua casa e grita: _ Eu não agüento mais!!!
Dias depois, sai no jornal uma coluna dizendo:
“Garota nova, bonita, de família de classe media, com dois irmãos, de pais separados, suicida-se essa madrugada num lago que se encontra na Universidade Federal de Pernambuco. Ela vestia-se com um vestido branco, repleto de pedras em seus bolsos, o que a impedira de boiar. Clara tinha apenas dezoito anos e pelo que se sabe, deixou dedicada a sua família uma carta e um legado de papeis escritos com seus sonhos e suas revelações.”
Agora se pergunta; Será que Clara conheceu um pouco sobre a vida de Virginia Woolf ?
Amanda Sotero